Olaria Santana: memórias resgatam o papel do barro na construção
Em entrevista ao RCN Notícias, empresário Ademar Santana relembrou a trajetória das olarias, o trabalho de mais de 100 funcionários e a produção de milhões de tijolos que ajudaram a erguer casas, comércios e outros espaços do município.

A história de Aparecida do Taboado, contada pelo ramo das olarias (Foto: Acervo Ademar Santana)
O primeiro personagem dessa trajetória foi o empresário Ademar Santana, hoje com 85 anos, que durante décadas esteve ligado ao setor e comandou, ao lado dos irmãos e familiares, a Olaria Santana. Sua memória revela um período em que a produção de tijolos movimentava a economia local e contribuía diretamente para a expansão urbana.

Ademar resgatou a história da Olaria Santana, em entrevista à repórter Gabi Almeida (Foto: Reprodução)
O projeto, entretanto, enfrentou dificuldades antes mesmo de começar. A família iniciou a drenagem da lagoa em abril de 1983, mas teve as atividades embargadas judicialmente pela CodeSul, que também havia requerido o diatomito existente na área. O impasse durou cerca de um ano e meio, até que a situação fosse resolvida e a família pudesse finalmente iniciar a fabricação de tijolos.

Tijolos produzidos na Olaria Santana abasteciam várias cidades no Estado de São Paulo (Foto: Acervo Ademar Santana)
Quando entrou em funcionamento, a Olaria Santana trouxe para Aparecida do Taboado um modelo de produção diferente daquele utilizado até então em algumas olarias locais. Enquanto parte da fabricação ainda era manual e dependia de animais para a movimentação e preparação do barro, a empresa da família Santana utilizava máquinas.
A estrutura chegou a contar com 22 fornos, com capacidade entre 50 mil e 70 mil tijolos cada.
Segundo Ademar, a produção mensal alcançava entre 1,5 milhão e 2 milhões de tijolos. A empresa também chegou a empregar mais de 100 trabalhadores e funcionava em dois períodos, chegando a trabalhar até as 22 horas.
A atividade não movimentava apenas a produção. A olaria chegou a formar uma pequena comunidade em seu entorno, com mais de 30 casas construídas para trabalhadores e seus familiares. Segundo Ademar, quando as atividades foram encerradas, em 2005, o material das casas foi destinado aos funcionários. Muitos desmontaram as construções e reaproveitaram telhas, madeira e tijolos para construir suas próprias residências na cidade.

Oleiros se dedicaram na produção dos tijolos que abasteciam toda a região (Foto: Acervo Ademar Santana)
A qualidade do material produzido pela Olaria Santana fez com que os tijolos ultrapassassem os limites de Aparecida do Taboado. Ademar conta que a produção era comercializada para municípios como Santa Fé do Sul, Novo Horizonte, José Bonifácio, Votuporanga, Fernandópolis, Jales, Castilho e General Salgado.
Além da produção de tijolos, a família também investiu em uma cerâmica instalada na Vila Glória. Em 1986, adquiriu uma unidade que estava parada e comprou maquinário de Santa Catarina para fabricar blocos. Como o mercado regional ainda preferia os tijolos tradicionais, a empresa precisou buscar compradores em outras cidades. A produção chegou a ser utilizada na construção de 250 casas na Vila Prudente, em São Paulo, além de obras em Jataí e de um frigorífico em Caçu. A atividade da cerâmica durou até 1992.
Ademar também identifica um exemplo ainda visível da produção da antiga cerâmica: um grande muro de tijolos à vista localizado em frente ao Banco do Brasil, feito com material fabricado pela empresa.

Várias famílias foram sustentadas graças às olarias instaladas em Aparecida do Taboado (Foto: Acervo Ademar Santana)
Ao relembrar o período de atividade da Olaria Santana, Ademar destaca não apenas os números da produção, mas principalmente as relações construídas ao longo dos anos. Mesmo depois do encerramento das atividades, em 2005, ele afirma que mantém amizade com antigos funcionários.
“Seu Ademar, faz tanto tempo que eu não lhe vejo”, é uma das frases que, segundo ele, ainda escuta de ex-trabalhadores quando se encontram. Para o empresário, essa relação permanece como uma das principais lembranças de sua trajetória.
A história contada por Ademar também ajuda a dimensionar o papel das olarias no processo de crescimento de Aparecida do Taboado. Antes da chegada de grandes indústrias e das transformações que modificaram a paisagem urbana, o trabalho dos oleiros garantia um dos materiais fundamentais para a construção.
Casas, comércios, muros e outros espaços da cidade foram erguidos com tijolos produzidos pelas olarias que funcionaram no município. Entre elas estavam a Olaria Santana, a Olaria do Domerito, na região da Vila Santa Rita, e outras unidades ligadas às lagoas conhecidas pelos nomes de Piranha e Traíra.
A série especial do RCN Notícias pretende justamente resgatar essas memórias e mostrar personagens e atividades que contribuíram para a formação de Aparecida do Taboado. Na sequência, a reportagem deve abordar a transformação de uma antiga olaria em cerâmica e mostrar como o ofício de oleiro ainda permanece presente no município.
Mais do que contar a história de uma empresa ou de uma família, o relato de Ademar Santana recupera a memória de uma época em que o desenvolvimento da cidade também era moldado no barro — tijolo por tijolo, pelas mãos de trabalhadores que ajudaram a construir Aparecida do Taboado.
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